— (Caio Fernando Abreu)
As vezes eu nem saiu de casa
As vezes eu deslizo, canto, eu brigo.
As vezes eu amo a poesia contrariada,
As vezes eu me amo por ser contrária.
Desgasta a alma, jardins com flores de papel.
Queria ser anjo, como você, pra voar sem culpa
Até a sua casa, vou andando, chegando lá, te levo pra passear.
— Luana Rodrigues
Em viagens as pessoas usam malas para levar tudo o que têm. E ela, só vai levar ao corpo o seu vestido predileto e um par de sapatos. Não quer levar nada que a faça relembrar do passado, só os filmes da câmera que estão espalhados em cima da cama, a fazendo levantar para a luminosidade da janela, e ter as desejadas últimas lembranças. Do lado, estão os filmes sem passado. Filmes antes marcados, e agora, vazios para novas imagens. Hoje será o passado de amanhã, e amanhã, o futuro de hoje.
Ela vai no banco de trás do carro, com as mãos no rosto, pois não quer ver para onde vai. Deixou tudo para trás, e está indo para onde a vida quiser direcioná-la. Está querendo encontrar uma saída para se livrar de tudo o que está acontecendo na sua vida. Todos foram embora e a deixaram. É a vez dela ir embora, e deixar tudo para trás.
Vanessa Carvalho
Cumprimente-me de acordo com meu humor. Rouba-me um sorriso, diga coisas bonitas. As vezes um carinho cai bem, um mimar, ninar. Queria que esse momento durasse pra sempre, como o eterno que não existe, e a escrita mentirosa que costumas ler. Tente se deslocar fora do lugar, não me olhas com essa cara de quem me quer bem, meu bem. As vezes o vento só vem pra avisar, que bons momentos estão chegando, e que essa brisa descontente vai passar, e que as primeiras pessoas que te olhar nos olhos, nunca iram se afastar. Poesias passageiras, rimas fora do lugar, vamos arrumar essa bagunça, ou deixar tudo como está. Finalizar com um beijo, de amizade ou namoro, quero ser estranha o suficiente, para que me deixe ficar, até o amanhecer chegar.
Não sejas tão covarde a ponto de me recitar um poema calmante, daquelas que me olha nos olhos e dizem coisas que eu não ouço. Não sejas tão rebelde a ponto de me afastar e me desejar em silêncio, pequena. Não sejas mais sua do que minha. As vezes pego meu vestido e vou passear, reprimindo sentimentos desonestos, querendo ser mais minha do que sua. Entende a minha armadura de proteção contra amores distintos. Eu queria ser bailarina. Sabe de onde tiro essa peça contestável. Sei de mim, não de você. Não sejas tão amiga, quero ser namorada. Quero ser esquecida, e ao mesmo tempo lembrada. Me guarde em uma caixinha azul bebê, bebê. Me deixe ser teu apoio, me apoie. Eu quero ser bailarina, inclinar-me ao seu encontro, beijar-te as mãos, e dizer “Vamos sair pra passear, te levo pra qualquer lugar” Me guarde em seus lençóis, ouça minha voz, não me leia, porque os poetas, mentem.
Chega um momento em que meus botões são os únicos que estão dispostos e interessados a me ouvir. Outras pessoas dizem querer ouvir meus desabafos que estão sempre abafados, mas para mim desabafar é o mesmo que me desproteger. Não gosto quando acabam descobrindo muitas coisas sobre mim. Meus desabafos-abafados me protegem.
Eles vêm com aquelas fisionomias de extremamente confiáveis, que eu já sei que não são, e me fazem recuar as palavras, só ouvindo o que eles têm a dizer. Eles desabafam e eu recuso a fazer o mesmo. Sempre as mesmas conversas vazias, o mesmo interesse fingido e a mente em outro lugar. As pessoas hoje em dia ainda estão confiando demais umas nas outras. Mal se conhecem e já contam as trajetórias de suas vidas. A minha eu deixo guardada.
Não é só pela desproteção, mas também pela falta de vontade de ficar falando sobre mim para os outros. Desabafar é tão desnecessário, que eu prefiro ficar acumulando tudo o que vejo. Não só que vejo, mas também o que sinto, penso, não sinto, ouço, faço, desfaço… O acúmulo é tanto, que às vezes no meio dos que estão ao meu redor, me escapam desabafos involuntários comigo mesma, e me perguntam se estou falando sozinha.
Não estou falando sozinha.Só estou conversando com os meus botões.
Posso falar das minhas insanidades e incoerências, que os meus botões só irão ouvir e não criticar. Mas só em último plano recorro a eles. Na maioria das vezes fico apenas com o acúmulo e não com a conversação com os botões. Ou eu acumulo ou faço rápidas conversas com os botões, mas nunca com os humanos. No dia em que eu comecei a me afastar das pessoas, me acostumei a permanecer longe delas.
Vanessa Carvalho






